Mesmo que às vezes suas metáforas fossem chatas e que todos já lhe tivessem dito isso, ela insistia em escrevê-las, pois as criava com incomensurável maestria. E muito bem sabia também desenhar. Sentava na praça todas as tardes e ficava lá das quatro até as sete e meia, que era quando as crianças entravam em casa para tirar a sujeira das roupas e dormir como anjos travessos. Se tinha um lápis e um papel, podia ser feliz, já que sua felicidade era feita da arte, era a arte em sua forma mais pura, o cheiro e a cor. E lá na praça, durante as três horas e meia, desenhava e escrevia lindamente, loucamente, apaixonadamente, também cantarolava, rabiscava mais ali do que ali, ouvia uma música francesa.
Vez ou outra, achava um laço de fita dourado perdido no chão. E o que havia de ser um laço de fita dourado, além de um laço de fita dourado? Usava pra prender os cabelos cacheados e via, no reflexo da água que bebericava, um laço de fita dourado. Havia de ser nada, exceto um pedaço da memória do laço, da fita, do cheiro, da cor.
E nada era, mas percebia frequentemente que um moço, amante das odisseias e temeroso quanto ao ócio, paquerava sua vizinha e dava à mesma, toda semana, uma caixa de bombons e um laço de fita dourado, e que a tal vizinha amarrava o laço na janela e dizia que iria ser dele até que o laço se soltasse. O rapaz acreditava na aparente força dos movimentos dela, mas ela amarrava fraquinho, fraquinho, e tão logo a noite caia, a ventania açoitava o pobre laço de fita dourado e ele se soltava. Ia cair lá nos pés da moça artista, que ia enrolar nele os cabelos.
O moço, coitado, achava que o destino lhe era cruel em tirar sua amada. Então comprava mais bombons e laços, e fazia mais visitas.
A amada ficava gorda, a artista mais brilhante - imagine, toda coberta de laços dourados - e os bolsos dele mais vazios.
E a artista pintava um pouco mais, e sorria, ligeiro.
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