Era mulher. Tinha uns seios fartos, umas pernas bambas (duas, para ser mais exato), um olho desenhado com maquiagem, o outro cego. Passava pelo francês aspirante a jogador de futebol todos os dias antes de comprar pão e sentia a intensidade de seu olhar, mergulhado no decote ousado que sua blusa exibia. Às vezes, sorria, às vezes, fingia se incomodar. Com seu olho bom, via o mundo, mas não na forma poética, abrangente e bonita da visão, e sim na que enxerga a aparência da realidade e sente a consistência do tocável. Guardava um sinal de nascença sob seu lábio superior, mas isso ninguém nunca reparara, mesmo quando ela pintava a boca com a tinta vermelha mais atrativa que havia no catálogo de batom. Estudava literatura hispânica e aprendia física quântica com uns livros antigos, não hesitava e comentava sobre o quanto sabia e o quanto ainda iria aprender com todos que fizessem menção de desejar bom dia. Gritava atenção. E por mais que sua aparência fosse ligeiramente desavinda, que sua cabeça se enchesse cada dia mais com a essência mais exímia da intelectualidade, e que ela pensasse como quase todos pensavam, quando trancava a porta de casa e aparecia na rua, os olhos de todos se voltavam para o seu decote.
Mas, num dia qualquer de setembro, quando conferia a caixa de correspondências, encontrou um bilhetinho coral. E nele haviam sido caligrafadas um punhado de doces palavras:
Por que quando você passa
As lagartas voam alto
Em sua forma mais pura,
A forma de lagarta?
É porque quando você passa
O mundo fica mais bonito
Perde a feiura da realidade
E mergulha na fantasia da mentira
E porque as lagartas também sentem
A felicidade dos corações dos poucos
Ingênuos gênios que acreditam
Que lagartas possam sentir…
Ela sorriu. Nem todos olhavam para seu decote.
E aumentou o decote ainda mais.
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