domingo, 18 de março de 2012

Curta história sobre um Escravo infeliz

Era uma vez alguém.
Com suas mãos sob o vestido da moça, sentia a maciez da seda, a força da própria palpitação, a lenta e sutil quebra de seu cárcere. Seus lábios desenhavam a forma mais lúdica da felicidade no rosto daquela à quem dedicava tanto amor, enquanto sentia os cabelos escuros que ela possuía lhe caírem sobre os ombros. Estavam sozinhos. Não havia luz ou som, só cores e sorrisos, taças de vinho e castiçais. E ele, que não gostava de dormir sozinho, expulsava-a de sua casa, corria para dentro de sua obscuridade e apoiava os pensamentos tristes numa almofada, porque esse era o certo.
Mas o que haveria de ser errado para o Escravo das Aparências?
Se a água mostrava-se incolor, errado era o azul, e que fossem quebrados todos os copos que infringissem essa verdade inalienável. Se por um menino se apaixonasse, proibido deveria ser o encontro de seus lábios, tampouco as mãos poderiam ser entrelaçadas, pois o que haveria de pensar o povo lá fora? Se uma rosa vermelha não refletia outra cor que não o vermelho, como poderiam existir as rosas azuis, brancas e amarelas? Não poderiam. Eram todas erradas e mereciam ter os caules cortados e os espinhos cravados nelas mesmas.
Apesar da evidente aspereza, nem um vestígio de crueldade residia no corpo do Escravo. Eu sei defendê-lo. É que ele apenas fincava as ações nos pensamentos e os pensamentos nos próprios ideais, que deveriam ser defendidos sob qualquer hipótese, e esses ideais tinham um corpo preconceituoso e medroso. Ainda que parecesse severo demais, ele era bom como um pedaço de broa, e seu coração tão grande, tão bonito, que contrastava com a personalidade néscia.
De todas as formas, absolutamente imersa esse jeito amargo, sua vida perdia até as cores e os sorrisos, as taças de vinho e os castiçais. E ele, que não gostava de dormir sozinho, que se prendia à correntes de arame que  machucavam mais do que protegiam, ao menos assistia ao fim de sua vida com a consciência tranquila, achando que por todos lá fora era julgado como certo.
Ironicamente, o povo comentava:
“Tá vendo aquele tolo, alí? Tá morrendo aos poucos. Tomara que morra logo, de uma vez. É bom que prolifera menos a própria infelicidade.”
E enquanto as rosas azuis cresciam, os meninos se amavam, na água era posto corante verde e sua dama se casava com outro, ele morria.
Fim.

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