Havia uma mulher, uma cama. Ambas dentro de uma casa, numa rua, numa cidade. E havia também uma mesa, um pedaço de papel, uma caneta. E na mulher havia lágrimas, um sorriso malogrado e uma palpitação descompassada.
Não tardou a escrever.
“Oi.
Meu amor, oi!
Oi? Amor?
Oi, amor meu.
Amor, oi.
Oi.
Acho que é assim que se começa.
Oi.
Sinto muito, mas perdi o jeito com essas coisas de carta, de comunicação, de relação. Por muito tempo fui eu, umas garrafas de bebida alcoólica e um CD com as músicas mais tocadas dos anos oitenta. Por muito tempo, você foi só como um espasmo controlado, um grito abafado, um gemido mudo. Por muito tempo, o Tempo passou despercebido pela minha porta, trajando uma espécie de “capa de invisibilidade” bem costurada, arrastando os pés silenciosamente, escondendo de mim a realidade com um pedaço de pano fétido. Por muito tempo fui feita fantoche, e em nenhum momento me prepararam para ceder de bom grado à súbita peça que o tal Maldito resolveu pregar em mim; assim, fui acordada com água gelada nas têmporas - metaforicamente falando, é claro.
Bem, acho que foi ontem durante a madrugada. Eu estava morrendo aos poucos, como de praxe, me revirando na cama como se o desconforto físico fosse o que me corroesse, quando meu pé escapou das cobertas e gelou instantaneamente. Por um segundo, nada aconteceu, a vida seguiu e meu pé foi coberto novamente. Mas então lembrei-me de você, do seu nome, da sua identidade, das suas manias, dos seus cabelos e paranoias - paranoia essa em que o corpo deveria estar completamente coberto ou você não adormecia. Não sei se você recorda, mas era realmente uma chatice! Às vezes eu gastava três minutos inteiros cobrindo você, porque você sempre foi muito minucioso, e eu reclamava bastante, né? Mas no fim, você agradecia, me pedia um beijo e caia nas profundezas do seu próprio sono.
A lembrança chegou com tanta força que pareceu nunca ter sido expulsa da minha débil mente. De repente, fiquei sufocada de saudades, e agora tá tudo apertado, dolorido, agudo. E saudades essas me trazem aqui, me levam a segurar essa caneta e a transformar uns pensamentos hiperativos em palavras mal desenhadas.
Daria tudo para saber como você está, para poder me desculpar caso algum dia tenha deixado de beijar-te o rosto depois da escola ou por não ter comprado o seu biscoito favorito por pura teimosia. Pois amo-te muito, muito, de verdade, e mesmo que eu tenha passado os últimos muitos anos tentando apagar-te da minha vida, guardo a certeza de que morrerei sussurrando seu nome, desejando olhar em seus olhos pela última vez.
Amor meu, oi…
Sinto-me uma boba escrevendo pra você, porque você nunca gostou de ler. Agora deve tá jogando bola lá no Céu ou brincando com as outras crianças, e essa ideia arranca-me um sorriso torto, porque meus lábios se esqueceram de como abrir. Por favor, peço-te agora que dê um tempo e leia essa carta da mamãe, está bem? É que eu preciso que você saiba que você é o meu amor maior, preciso que saiba que sou louca por você e que teria me oferecido à Morte no seu lugar, se à mim houvesse sido entregue a oportunidade de fazê-lo.
Agora a mamãe vai embora. Obrigada por tudo.
Tchau, filho.”
Foi ai que a mulher parou de escrever.
Tão logo apoiou a cabeça na mesa e morreu.
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