terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Rei das Palavras: leitura d'O Destilador de Tulipas

                                             A escolha do Rei das Palavras
Entre surtos de inspiração e lapsos de ideias, um rapaz goza da felicidade e imerge na forma mais estupenda do júbilo. Anda, pacientemente, de um lado para o outro dentro de seu quarto, enquanto os dedos passeiam pelas capas empoeiradas dos livros amarelecidos. Na estante infinita, consulta seu bel-prazer e se perde nas infinitas possibilidades de escolha. Não tem pressa, pois aquilo o diverte; frente ao mar literário que lhe foi guardado durante muito tempo, faz-se o rei das palavras - e a ideia de possuir algo sempre parece tentadora, ainda mais quando de sua posse são as junções de letras, as palavras, as deusas mais poderosas do mundo. Escolhe um livro de contos meio acabado, com partes desbotadas; sabe que os livros mais gastos são aqueles mais lidos, mais degustados, mais preferidos, e com isso em mente, abre-o no chão e começa a saciar um pouco de sua sede.
                                         O Destilador de Tulipas - a história
Para começar, um punhado de revelações:
Eu tenho medo do mar.
Sempre tive e há muito tento encará-lo. A escuridão, a ausência da certeza do que me cerca e a sensação de perigo eminente me incomodam a ponto de angustiar-me, e eu temo as angústias, porque elas massacram meu coração já ressequido e destroem-o num piscar de olhos - num batimento, que seja.
Eu receio a menina que dorme.
O faço porque sempre vejo-a prendendo os cabelos num coque todo errado quando acorda, já que perdeu o costume de tê-los tocando sua pele. Todas as tardes, encaro-a abrindo a janela para permitir a entrada de alguma luz, olhando pro mundo, admirando o voo do colibri e desejando, no fundo, ser apenas uma das rosas pra quem o pássaro dedica o beijo. Ela dorme porque teme a vida, teme a vida porque não a conhece, não a conhece porque só sabe dormir.
Temo os meus sonhos.
Porque neles a menina que dorme é uma sereia formosa, e os mesmos cabelos prendidos por ela no plano real dançam sobre seu corpo belamente delineado. Nesses meus sonhos fantasiosos e vis, ela se mune com um fôlego tão falho quanto o de uma criança asmática e sobe até a superfície para me cobrir de afagos melindrosos. Mas nossos encontros são malogrados… E é aí que eu acordo, com um vislumbre de seu canto espargindo-se, de sua boca enchendo-se com as próprias lágrimas e de seu corpo, depois humano, voltando-se para a cama e caindo num sono profundo.
Dada essas revelações, sinto feita mais propícia a hora de desfazer-me dos sufocos na garganta, dos engasgos no peito, dos pedaços ressequidos do meu coração.
Minha história prossegue assim, lacônica: por temer meus sonhos, evito a hora de dormir, fazendo-me oposto à menina dos cabelos longos que mora na casa ao lado. Tudo seria magistral: eu enrolaria minha vida nuns fios de ingenuidade e deixaria os pesadelos para trás, não fosse pelo fato da hora de dormir sempre chegar, mais cedo ou mais tarde, porque o sono bate insistentemente na porta da consciência e o cérebro não resiste a tanta persistência, caindo, assim, na armadilha pérfida que é o adormecimento. Meu plano falha com certa frequência degradante e, por conseguinte, acordo diariamente bastante anelante, consciente da fantasia vivida, refletindo sobre o agouro da mesma e pensando nas possíveis repercussões no plano real.
Meu passatempo preferido e doentio tornou-se beber café descafeinado (pois, ainda que pouco efeito energético e nenhum alucinógeno tenha, surte em mim consequências psicológicas) e destilar tulipas, uma por uma, até que só sobre um caule esverdeado. Não sei por quê, mas sempre me deu prazer tentar a sorte no bem-me-quer, mal-me-quer, mesmo sabendo que essa ilusória e farsante brincadeira não passa de uma distração infantil. Foi aí que nomeei-me O Destilador de Tulipas. Proclamei-me num monólogo oportuno e protegi, como se fosse um segredo, minha identidade real nesse codinome, para que pudesse pôr as cartas na caixa de correio da menina dorminhoca e, ainda assim, permanecer como anônimo em sua vida. Elas - as cartas - carregavam, mais ou menos, os seguintes dizeres: ”Menina, acorde! Saia de seu ninho e aconchegue-se no meu colo, experimente a vida ao meu lado, para que possamos compartilhar as volúpias de um casal apaixonado e fazer de meus pesadelos infames uma fantasia distante. Minha Sereia, saiba, por favor, que eu tenho a cura para esses seus ataques asmáticos, que dedico à você um amor pseudo-pantomineiro e que seu rosto incrédulo da vida emoldura meus porta-retratos. Acorde, moça dos meus sonhos; acorde e deixe soltos esses cabelos castanhos…”
Completamente entregue ao fracasso, mais uma vez adormeço. Sua calda dança, seus olhos brilham. Prevejo sua súbita morte e, mesmo frente à escuridão do oceano, mesmo temendo-o, angustiado, mergulho nas águas gélidas e nado até encontrá-la. Meus movimentos transbordam vitalidade; enfim, teço nossos lábios e sinto-a, absolutamente viva e acordada dentro de mim. Ela me abraça, e sua sede pelo meu corpo humano consome-a a tal ponto, que ela se torna cega, incapaz de perceber minha necessidade urgente de ar. Seu abraço se torna mais forte, e meu ar, mais exaurido, até que respiro e a água que invade meus pulmões sufoca-me de dentro para fora…
Acordo apreensivo, surpreso pela notável mudança em meu pesadelo. Vejo surgir em mim a vontade eminente de escrevê-lhe e o faço. Para ela, o Destilador é um nome no papel, mas para mim, é o portal de contato que une nossas almas, a dorminhoca e a excessivamente acordada. Calço minhas pantufas, subo as persianas que cobrem a janela e noto a branca tez da manhã; sinto a brisa gélida invadir minhas narinas e respiro a doçura do ar. Como de praxe, espiono a casa da menina vizinha.
Mas pela primeira vez, vejo-a acordada de manhã, e, entre seus dedos, um bolo de cartas assinadas com o codinome Destilador de Tulipas.
                                      Dois pensamentos do Rei das Palavras
Se a Morte viesse visitá-lo agora, ele não iria se importar. Já havia sentido incomensurável satisfação ao percorrer com seus dedos os diversos títulos de livros, agora morria imerso no contentamento mais puro. “A partir desse momento pós-leitura, sou Destilador de Tulipas”, pensa. “E Lisbela será minha sereia…”

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