sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O milagre da Rosa

Como têm sido de praxe, o fim, de antemão:
A rosa germinou
Tão nova, tão linda
No quarto dia
Sob um jardim farto, do tipo que transborda amores vitalícios, uma nuvem negra se encontrava. Atendia ao clichê e fazia cair uma chuva grossa e gélida na terra quase enlameada do jardim. A pequena casa pintada de amarelo estava toda negra, e as flores sempre coloridas, cinzas. A tristeza estava alí, viva, triunfante e as lágrimas que caíam das faces das pessoas se confundiam com os respingos oriundos da chuva. Era tudo água, solidão, apertos excessivamente fortes no peito. Até as plantas choravam, quase gritavam de dor emocional diante da desgraça alheia.
Uma menina - a filha dos camponeses donos do jardim - acordara sem batimentos cardíacos naquela manhã de novembro. Como se tomada por um lapso respiratório, a crise asmática surgiu naquele pedaço de vida e a Morte carregou durante a madrugada uma alma apática, anteriormente pertencente à um corpo jovem e pouco saudável. A menina não devia ter mais de onze anos… Acordava todos os dias ao som do cacarejo da Donzela, vestia suas pantufas e colocava-se à mesa do café-da-manhã para o habitual pão com manteiga mais copo de leite quente. Nesse dia - o primeiro dos dois dias inesquecíveis na vida de seus pais e das flores, também - a galinha chamou-a inúmeras vezes e nada da menina aparecer. Seus pais, então, foram ver onde ela estava, pois era de imensa estranheza a sua demora urgente. E aí, a percepção.
Uma cena triste, no mínimo:
Um casal camponês implorava para que a filha acordasse
Dando mil beijos em sua face pálida
“Por favor, querida, abra os olhos, sim?”
Silêncio
E lágrimas
Nos dias que seguiram a precoce morte da pequena moça, não houve vida. Seus pais não compareceram ao encontro na cidade para a entrega de suas flores e o recebimento duns trocados, as flores não cresceram nem murcharam, e mesmo a chuva torrencial se acalmou, fazendo a casa imergir num silêncio dilacerante e atormentador. A saudade veio para os pais, para a cama, para os livros que a menina lia escondida todas as noites com um pedaço de vela e fósforos furtados; a saudade veio para as flores que amavam ser regadas pela menina e sua delicadeza, veio até mesmo para a Donzela, que continuou chocando seus ovos e comendo seu bom milho, certa de que agora seu cacarejar era inútil. Primeiramente, algumas palavras eram trocadas, do tipo “querido, você pode, por favor, pegar os ovos da galinha?”, mas depois o único som passou a ser o sopro suave e gélido que invadia a casa através das janelas entreabertas.
A menina havia morrido. E os que não haviam estavam, aos poucos, morrendo sufocados, dominados pelo vazio existente dentro deles mesmos.
A súbita mudança do cenário
A mãe, enfim, criou coragem para entrar no quarto da filha
Achou uns livros, e surpreendeu-se
Pois nunca havia ensinado a filha a ler
E mesmo pouco sabendo das palavras, conseguiu decodificar
A frase escrita com a letra bamba da menina:
“Se eu morrer, me plante uma rosa”
No dia seguinte - eu me lembro, eram dois de dezembro - os pais saíram de casa e, depois de escolherem o que parecia ser a rosa mais promissora, plantaram-a e regaram-a com as lágrimas que caíam dos próprios olhos. Sabiam que iria demorar muito para que da roseira nascesse uma rosa, mas não deixaram de conferir seu andamento diário.
No primeiro dia, o pai foi sozinho. Olhou rapidamente para a roseira e constatou o óbvio: ela não havia feito um movimento sequer. No segundo e terceiro dia, também.
O quarto dia chegou e a manhã, antes congelante, já começava a ser aquecida pelos feixes de luz que o sol emanava. Assim, quando os pais da menina que morava lá no céu saíram para ver a roseira, transformaram aquele dia mo segundo dia inesquecível da vida deles - e também das flores.
Um momento para nunca esquecer
Na roseira até então improdutiva
Uma linda rosa mostrava-se
Exímia, perfeita, cheia de belas pétalas
Que eram rosas, por sinal
E os pais, as flores, o jardim, o mundo inteiro percebeu
Assim, de súbito,
Que a rosa era a menina

Então, silêncio
E lágrimas

Um comentário:

  1. Chorei Ju.chorei muito.cada dia que leio seus blogs,você consegue tocar meu coração de alguma forma.

    nina.

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