terça-feira, 29 de novembro de 2011

Vida e morte do Colecionador de Sorrisos

O fim, quer você goste ou não:
O colecionador de sorrisos
Morreu triste
O barco de papel é bonito. Boia nas águas de um rio que desagua no mar e não sabe nada sobre o mundo. É todo mal-feito, mal-dobrado, e sua base molhada não promete sustentá-lo por muito tempo. Navega misteriosamente de um lado para o outro enquanto uma criança o observa. A criança - menina magra dos cabelos compridos - pega um pedaço de papel que já foi árvore e faz outro barco, porque sabe que navegar solitário é triste - e seu barquinho merece muita alegria nessa vida de papel. A criança vê um barco alcançando o outro, percebe, de súbito, que está na hora de deixá-los seguir seus caminhos e vai embora, sorrindo.
Naquele exato momento
Enquanto a tal menina dos cabelos longos sorria
Um homem a observava
E guardava seu sorriso na coleção de sorrisos
Que existia no próprio imaginário
Um gatinho sempre é um bom presente. Dentro de uma caixa cheia de furinhos, estampada com balões de aniversário e enrolada num laço de fita vermelho bem bonito, um felino vira-lata mia baixinho. A bebê completa um ano hoje e sua mamãe quer dar à ela um presente para amar e preservar por toda a vida, até o momento da súbita visita da Morte. Há um bolo de aniversário e uns brigadeiros suculentos na mesa do parabéns e os pais da bebê se beijam, felizes e orgulhosos de sua pequena princesa. O primeiro aniversário é sempre especial. “Que possamos passar todos os outros ao lado de nossa filha amada”, sussurra o papai. Então a bebê percebe que há uma caixa maior e mais bonita do que todas as outras, e quando desata o nó desajeitadamente, vê um pequeno gatinho tricolor. Ela sorri. Seus pais sorriem. E gato só olha, sem nada compreender.
Naquele exato momento
Enquanto a família comemorava
Brincando, dando “boas-vindas” ao gatinho
Um homem observava atrás dos balões festivos
E guardava os sorrisos deles em sua coleção
A mulher dos cabelos ruivos aguarda, pacientemente, no sofá. O amor de sua vida pode chegar a qualquer momento e ela está pronta para se entregar. Não se importa mais com os olhares alheios ou com as meias palavras tristes que os outros despejarão sobre ela, pois sente a sede das carícias, a urgência de sua paixão, e somente isso tem valor em sua vida. Lembra-se dos traços, dos lábios e até do cheiro da pele daquela pra quem dedica tanta beleza sentimental. Encara o relógio como se a força do pensamento movesse o tempo, e tenta fechar os olhos para entrar num estado mais calmo, quem sabe noutro plano onde seus batimentos cardíacos sejam capazes de voltarem ao normal. Mas não fecha. Apenas ouve o som da maçaneta girando e levanta para ver quem está chegando. É ela. É a mulher de sua vida, sua alma-gêmea, sua razão. Sente um desejo enorme de beijá-la, senti-la, tê-la, mas permanece parada, olhando, absorvendo. Uma sorri. A outra, também.
Naquele exato momento
Um homem, Colecionador de Sorrisos
Sabia dos sorrisos das amantes
Espiava por debaixo da porta
E guardava-os consigo
A fuga é o maior sonho do passarinho. Ele pia alto, pede socorro e grita no meio do silêncio matinal enquanto todos ouvem, apreciam, acham seu que seu canto é uma genuína boniteza. Ele implora porque quer ser um passarinho mas ninguém deixa, ninguém respeita ou o acode. Vê as gaivotas lá no céu, voando pra cima e pra baixo, se escondendo atrás das nuvens, atrás das árvores, e imagina, por um momento, o sabor da liberdade, a sensação de poder ultrapassar as grades enferrujadas que o cercam. Desata em lágrimas, tenta se afogar nas mesmas mas não consegue, porque ainda guarda esperanças. O passarinho é forte, sabido, crente no Destino e na Justiça do mundo. E sua fé é tão poderosa, sua persistência tão infinita, que num dia de solstício o homem que o prende se distrai e a portinhola se abre por um momento e… Voa. O passarinho voa. A fuga é o maior triunfo do passarinho. Ele sorri.
Em abril, 1987, a Morte
Um homem observa um passarinho sorridente
Então chora
Ele é o Colecionador de Sorrisos
E não sabe ser feliz
Não sabe porque não consegue
Não consegue porque não tenta
E não tenta porque guarda a certeza
De que ele é a Lágrima…

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