segunda-feira, 28 de novembro de 2011

As coordenadas estavam erradas. Um pouco mais para a direita e o Fim

Uma breve definição do começo
Minha língua se entrelaçava com a de uma mulher
Nossa paixão queimava nossos corpos
Eu via sua pele marcada pelo símbolo
Ela era uma mulher indigna
Mas eu não me importava, eu desejava-a
Porque sentia por ela o Amor…

A água é o maior bem do mundo. Mar, oceano, rio, lago - é tudo lindo, é tudo fonte infinita de esperança, é tudo salvação. Assim penso eu, homem feito, cheio das ideias doidas na cabeça. Assim penso eu, um homem que compõe o grupo de cento e vinte e sete pessoas que não esperam mais nada dessa vida. Todos nós temos as peles marcadas por um símbolo criado para determinar que somos impuros e indignos de qualquer meia palavra alheia. Todos nós perdemos o brilho dos olhos, o gosto na boca, a gula, a esperança. Todos nós fomos jogados em um navio fechado, feito para nos tirar a oportunidade de nos lançar nas águas do mar e afogar sozinhos, porque mesmo a escolha da hora de nossa morte é nobre demais para que possamos tê-la. Reduzidos a miséria, vestimos trapos com estampa militar e, vez ou outra, comemos o pão que um homem amassou. Somos todos homens que não temos nem a posse do ar que respiramos.
Ainda assim, somos todos homens.

A decisão
Lágrimas escorriam pela minha face apática
Eu precisava vê-la
Ela era parte de mim
E eu era parte dela

Olho pra cima e imagino a imensidão do céu se pondo sobre mim,  a fragrância da marisia penetrando minhas narinas, o sopro suave do vento primaveril batendo na minha pele. Infelizmente, o teto é coberto por um tecido grosso e fétido e não deixa descoberto um centímetro sequer do azul que eu daria tudo - se tivesse algo - para ver. O único cheiro que sentimos é de podridão, e nem a mais fraca das brisas nos faz visita. Não sei que dia é hoje, se lá fora é visível o esplendor do sol ou a elegância da lua, há quanto tempo eu vivo e quanto tempo me falta parar deixar de viver. Só sei que não estamos na primavera e que sinto saudades, pois a minha própria sanidade implorou para parar de sentir e de saber de todo o resto.
E são essas saudades que me mantém respirando.
Se as sinto, é porque na minha cabeça ainda persistem as imagens, as vozes, os vestígios de momentos inesquecíveis. Se as sinto, então ainda tenho os seus quadros decorando todas as paredes da minha memória débil, e eles continuam sendo capazes de me fazerem sorrir - mesmo que aparentemente não haja motivo para isso. Eu lembro de você, pequena Flor-de-lis, porque o sangue que corre nas minhas veias é o que seu coração bomba. Eu não me arrependendo te ter feito o que fiz para te ver; nenhum sofrimento poderia ser maior do que viver todos os segundos querendo te conhecer um pouquinho mais, desejando poder te abraçar só mais uma vez. Se agora morro aos poucos, sei que é apenas por causa dessas necessidades vitais que todo ser humano têm. Aqui dentro de mim, minha alma brilha de felicidade, meu coração se enche de satisfação e meu âmago guarda o codinome que fiz pra você. Agora eu carrego a Morte mas costas, mas também tenho um momento para degustar em minha mente quando Ela quiser me carregar. Por isso, Flor-de-lis, o meu eterno obrigado.

Agora
Os outros cento e vinte e seis homens encaram o meu sorriso, inertes.
E eu apenas sorrio mais.

Eu gostaria que você soubesse o quão gentil foi a minha vida. Encontrei uma mulher maravilhosa a quem pude dedicar muito amor e dividi tempos fantásticos com ela. Depois, tive a oportunidade de te conhecer - a filha que nela fiz. E como se isso tudo não bastasse, ainda reencontrei o meu melhor amigo, que agora é homem feito os outros (se veste de soldado, bate em gente como eu e marca símbolos nas peles), mas que carrega bondade no coração e a certeza de que, se não seguir as ordens que lhe dão, acabará como eu. Esse amigo me prometeu entregar a carta que escrevo à você, e se você está lendo, é graças a lindeza que abriga a alma dele. Por isso, amigo-soldado, o meu eterno obrigado.

Minha primeira partida
Foi do amor da minha amante, sua mãe
Para a misteriosa amplitude do mundo

Arrependo-me disso, apenas; hoje eu gostaria de voltar no tempo para optar viver num só lugar, para escolher ver você nascer ao invés do pôr-do-sol em todos os países desse planeta. E muitos anos se passaram, mas isso não me entristece mais; graças a eles, você adquiriu maturidade o suficiente para entender e engolir cada palavra que agora marco no papel. Então, flor-de-lis, já que tenho a oportunidade de fazê-lo, aqui te entrego alguma explicação.

Minha segunda partida
Foi da terra para o navio
Muitas pessoas estavam me olhando como se eu fosse desprezível
Porque elas lembravam que eu havia amado a mulher
Nesse dia, eu estava visitando minha filha pela primeira vez
Nesse dia, os soldados estavam recolhendo os mal-olhados

Acontece que as histórias dos contos de fada existem, mas nossa família não foi escolhida para vivê-las. Sua mãe era uma moça da vida, que não morria porque satisfazia as necessidades carnais de outros homens. Mal havia começado a conhecer a vida e teve de trocar o braço por um teto, a perna por água, os cabelos por maçãs. Quanto a mim, eu sempre fui um rapaz de aventuras; já havia fugido de casa e costumava embarcar nos navios sem saber para onde eles iam. Vim para o Brasil, vi sua mãe. Sua mãe me viu, também. E nosso amor surgiu, minha pequena. Foi simples desse jeito.
Você provavelmente já sabe que no mundo existe uma marca, quase um símbolo, que define quem as pessoas foram de acordo com o julgamento de todos que não são a própria pessoa. Essa marca se chama olhar. Sua mãe era olhada de um jeito terrível porque fazia as coisas que fazia e, depois de tê-la abençoado com uma filha, passei a ser olhado do mesmo jeito. Apesar da mudança radical que minha vida sofreu, eu definitivamente sou grato a sua mãe por ter me feito homem, por ter mostrado o poder do amor e me ensinado que o olhar não é nada, se comparado à ele. Por isso, minha-bela-amante, onde quer que você esteja, o meu eterno obrigado.

Não muito longe de mim, apenas o suficiente
Homens gritam, desesperados
Parece haver um erro nas coordenadas
Só há mar, para todos os lados
E uma pequena abertura na estrutura do navio

Não sei o que está esperando todos esses homens e eu assim que desembarcamos. Talvez apenas os soldados saiam do navio para encontrar suas famílias e nos mantenham nessa prisão no meio do mar, talvez nos deem uma prisão na terra firme, talvez nos façam prometer se esconder das outras pessoas, talvez nos tratem como os judeus no Holocausto. Mesmo já tendo passado a época em que as palavras dominavam e, hoje, estando apenas os olhares no topo de todas as cadeias, não creio que a maldade tenha sido extinta dos cérebros de quem têm poder.

Uma sensação para nunca esquecer
Meus pés estão molhados
E muita água entra no navio
Depois, meu pescoço está coberto
Meus ouvidos mal absorvem os gritos
Meus olhos enxergam através da água transparente

Agora eu vejo algo estranho acontecer. Os cento e vinte e sete homens que deveriam morrer, morrem. E os que deveriam matá-los, também. O navio de estrutura frágil não aguenta e se desmancha, se entrega para ser casa das sereias que vivem lá no fundo do mar, se vê transformado em mobília de areia.
A água mostra-se justa, misericordiosa. A água é linda e só agora sinto sua beleza. Bebo-a, respiro-a, e subitamente sou água também. Nenhum homem pode mais tirar-me a vida, pois todos, inclusive eles, são vítimas do Destino, não são mais donos de si.

O veredicto final
Afundamos num abismo que a sociedade cavou com os próprios pés
E que sempre nos pertenceu.

Um único desejo preenche a minha mente: que o amigo-soldado pudesse sobreviver, para entregar a carta à você, flor-de-lis, conforme o prometido.
Uma única pergunta invade meu coração: será que a vida desses homens foi tão boa quanto a minha?

Nenhum comentário:

Postar um comentário