A meteorologia era inútil.
O temporal havia chegado com força e fazia daquele dia, um dia molhado.
Ao menos na França, as pessoas se importavam. Recolhiam-se dentro de suas casas, arrumavam as camas e dormiam, com um copo de chocolate quente sobre a mesinha de cabeceira e mantas para aquecer os corpos tão gélidos.
As pessoas, menos uma menina. Ela mal notava, pois vivia molhada; a chuva morava dentro dela e não respeitava o céu exterior, mas os sentimentos sóbrios e sombrios de uma humana peculiar.
Na terra enlameada, poucas pegadas. As flores afundavam, morriam sufocadas, e os pássaros buscavam abrigos em árvores viçosas.
A rua era perturbada pelo barulho da chuva e só. A rua estava vazia, exceto por algo, por alguém.
Uma menina carregava um livro roubado debaixo do braço e tentava protegê-lo com suas vestes ensopadas. Fracassava, mas se mantinha entretida enquanto presa à espera de um rapaz. Sentava no banco. Brincava com mechas de cabelo.
Apenas a menina ladra de poesias não se importava em esperar. Aprendera, com um de seus livros favoritos, que a paciência era uma dádiva a ser conquistada e mantida, e que, depois de realizar tais proezas, o direito usufruí-la cabia ao vencedor.
Em sua mente, filosofias infantis nasciam, cresciam, desfaleciam e assistiam ao próprio enterro. A Morte vinha buscá-las, sob um manto negro e espesso, e recolhia suas almas sem deixar vestígios de presença - ou ausência.
Uma vontade danada de descrevê-la, mas, subitamente, perda de palavras, de definições palpáveis...
A menina era munida de poucos anos físicos, tinha uma pele macia ao tato e um sorriso amistoso, com dentes ligeiramente tortos. O corpo era miúdo, frágil, e os pulsos pareciam galhos vulneráveis, facilmente quebráveis. Seus cabelos negros e ondulados grudavam no rosto, mas ela nem se dava ao trabalho de prendê-los.
Uma silhueta humana podia ser notada, ao longe.
Era um rapaz - o rapaz. Caminhava sob a chuva com calmaria invejável e mantinha o olhar fixo na menina roubadora.
Sentou-se ao lado dela. Suspirou. Olhou para cima.
- Belle couleur, le ciel - Ele reparou. - Cor bonita, a do céu.
Pensaram.
- Há recitais sob o seu paletó?
Um meio sorriso.
- Como o combinado.
Sentiram os respingos baterem em seus corpos apáticos. A troca alí seria feita: os poemas de um pelos doutro, um vislumbre de um livro roubado por um pedaço de pergaminho, duas fatias de pão dormido por histórias.
Cor gozada, de fato, afirmou para si mesma.
Entre tantas possíveis, uma pequena observação: quando chovia, a cidade se calava, e a luz que excedia das lamparinas se fazia insuficiente.
Menos para eles. Não na noite do encontro, das trocas.
Menos para eles. Não na noite do encontro, das trocas.
- A chuva também caí aí, moço?
- Sou feito dela.
Reflexões.
- C'est quoi ce bordel, hein!? - Ela disse. - Mas que merda.
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