segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sempre sou a primeira a chorar

Motivos para isso são os tais:
Tenho mania de alinhar-me na frente no tabuleiro preto e branco, fazer-me cavalo de madeira e defender os reis de um jogo de xadrez metafórico.
Não resisto; ouço músicas tristes - confortantes, mas tristes - e sinto-as com corpo, mente, alma, pulmão.
Durmo depois de todos sonharem, fantasio, personifico meus medos e apelos nas sombras feitas por cortinas que tremulam e dançam conforme a brisa gélida avança pela noite.
Gosto do ato de chorar em si.
Chorar faz-me bem, de forma que concede-me um prazer ligeiramente infantil. Não tão simplesmente gosto, mas amo, me liberto, crio asas e voo alto.
Carrego dentro de mim um coração frágil, que derrete como gelo sob sol, desfaz-se na penumbra da solidão e pesa, de tão bom que é.
Um pedaço de minh’alma é feito de confusões, diferentemente das outras pessoas - também por isso, choro. Elas, não.
Num outro pedaço da mesma alma guardo sentimentos complexos e divergentes entre si - o que deixa-me triste, faz-me desatar em doces lágrimas, como rio, não mar.
Eu sigo remando num oceano inconstante e amando sem os limites do horizonte, acumulando decepções e, vez ou outra, acrescentando à coleção mais um motivo para ser feliz.
De felicidade, eu também choro.
Eu não apenas choro, mas transbordo sentimentos intangíveis, codifico fórmulas complexíssimas e ponho, na espreita, gotas de uma dose e meia de mim, metamorfoseando-me em alguém inteiro - mesmo que provisoriamente.
A nostalgia vive em mim, servindo-me como uma infeliz companheira. E nostalgia gosta de ver, em meu rosto, as doces lágrimas sobre quais já falei: são do rio, não do mar.
As expectativas que as pessoas criam e lançam sobre mim fazem minhas costas doerem.
De dor, eu também choro.
Tenho qualidades de poetisa, e poetisas sempre são as primeiras a chorar.
Tudo o que cultivo cai por terra, até as flores mais cheirosas, até os frutos mais suculentos.
Eu sinto muito, de verdade - em todos os sentidos possíveis.
Eu sou eu, e é simples assim.

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