meu doce amigo encantado, como anda essa sua vida de poeta? Bem, eu tô bem; continuo apoiando meu tronco nessas pernas que vez ou outra tremulam e adornando as palavras sem sentido que insisto em desenhar no papel. Também ando procurando, às cegas, um amigo para compartilhar meus feitos, minhas frustrações e meus sentimentos de menina ingênua, encontrando apenas ausências, vãos e poeira e lhe afirmando: não há nada mais frustrante ou decepcionante. Eu sei que não devo criar expectativas, mas, assim como você, sou feita de carne e osso, carrego um coração pesado, desesperado por doar-se à alguém ou entregar-se à um amante especial, além de um âmago vazio, vazio, irremediavelmente perdido. Por essas e outras tantas vim lhe escrever, já que você sempre terá tempo para sua pequena e faz questão de ler os devaneios infantis dessa que lhe fala.
Tenho sentido-me estranha. Parece que uma pequena poetisa está brotando dentro do meu peito, confortando-me e compreendendo-me, o que faz-me enaltecer. Ela gosta de tristeza, solidão, escuridão, nostalgia e angústia, já que, assim, clama pela inspiração, torna-se apta para escrever recitais belíssimos e puros como água cristalina. E o nó se deve ao fato de que, desses sentimentos, eu cobiço distância. Estou vivendo uma guerra interna, onde parte de mim deseja tornar-se a sensibilidade personificada, aceitar o destino solitário e padecer injuriada para sempre, com lápis, papel e tão simplesmente mais nada nas mãos, e a metade restante almeja sucumbir a ignorância e fazer-se, de alguma forma, feliz. Não consigo apostar em qual lado vencerá nem pôr um ponto final nessa história desgastante, pois agora sou resquício, sou escritora desvanecida tentada à ceder reticências. Então lhe pergunto: o que faço, Adão? Por favor, diga-me como desmanchar essa guerra sem sair ferida.
Ah, eu ando com tanta saudade de você… É triste saber que não compartilhamos ou compartilharemos fotos, porque sua beleza e magnitude não se prendem à papel, à imagem impressa, ao presente, ao momento, mas à eternidade divina e memorável; sei disso. Porém, você nunca mais fez visita em meus sonhos, deixou bilhete amassado com aquela caligrafia desenhada (que você e apenas você possui) nem veio acordar-me no meio da noite, quando os pesadelos sabotam meu protótipo de sono tranquilo. Para onde você foi, anjo meu? Bem, não importa, só volte logo, pois setembro está chegando e, com ele, a primavera - nossa estação favorita.
Agora, sinto-me bem. Não só por estar escrevendo para você mas também porque estou ouvindo o fascinante farfalhar das árvores. Sim, é fascinante, porque sucede a ventania sutil, cavilosa, ingênua e cria um som natural, até meio espontâneo, meio musical, que faz-se soar baixinho em meus tão cansados ouvidos. Sabe, Adão, se eu pudesse, permaneceria sob essas árvores tortuosas até que uma delas se levantasse, arrancasse as próprias raízes e me ordenasse voltar para casa (o que não deixaria de ser contraditório e retórico, já que considero esse canto como lar). Eu apenas me levantaria e deitaria novamente, para recomeçar a brincar com as folhas das figueiras e colher seus frutos para degustá-los quando o vento chegasse e o ciclo recomeçasse.
Sabe, Adão, esses dias têm me dado vontade de comer pizza.
Descobri que gosto dos finais felizes, dos infelizes, dos inesperados, dos eternos, dos marcantes, dos descartáveis, dos finais, enfim, assim, de forma geral. Talvez porque eu seja excessivamente curiosa, talvez porque as histórias infinitas deixam vazio incômodo e resquícios de ideias particulares não compartilhadas com o mundo dentro de mim. Bem, não importa - nunca importou -, mas muito me incomoda essa afeição, que têm feito-me refém da necessidade de pôr pontos finais em poemas - e, você sabe, poemas são eternas reticências. Mas não controlo, não há jeito; só faz-se restante repetir mansinho, ao pé do meu próprio ouvido, que os inícios são indiscutivelmente mais agradáveis, pois dão asas às possibilidades inventadas pela minha mente travessa. Eu repito, eu repito, eu repito.
E é aí que vem a vontade de comer pizza.
Tenho lido meus escritos singulares e descoberto que eu mudei muito. Você também, admita. Antigamente nós nos fazíamos opostos como sol e lua, agora estamos mais para outono e primavera personificados em almas desacorrentadas. Por que, Adão? Será que foram esses milhares de anos como aprendizes em planetas com mestres mascarados? Ou mesmo a quantidade numerosíssima de café descafeinado que tomamos? Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que prometemos não julgar o tempo como as outras pessoas; um sorriso, quinze anos, duas lágrimas, mais setenta, uma flor, menos quatro. Essa história de um ano para cada translação nunca nos passara de bobeira inadmissível, controle remoto sem fio, vigilância ilegal. E por isso somos tão velhos e jovens, ao mesmo tempo.
Tenho lido meus escritos singulares e descoberto que eu mudei muito. Você também, admita. Antigamente nós nos fazíamos opostos como sol e lua, agora estamos mais para outono e primavera personificados em almas desacorrentadas. Por que, Adão? Será que foram esses milhares de anos como aprendizes em planetas com mestres mascarados? Ou mesmo a quantidade numerosíssima de café descafeinado que tomamos? Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que prometemos não julgar o tempo como as outras pessoas; um sorriso, quinze anos, duas lágrimas, mais setenta, uma flor, menos quatro. Essa história de um ano para cada translação nunca nos passara de bobeira inadmissível, controle remoto sem fio, vigilância ilegal. E por isso somos tão velhos e jovens, ao mesmo tempo.
Às vezes concluo que só você gosta de mim, Adão, entende esses meus extremos incômodos, relances insanos, desejos asfixiados, inconstâncias frequentes e até mesmo a necessidade incontrolável de escrever sobre tudo o tempo todo. Ninguém mais parece me compreender ou esforçar-se para tal; mesmo eu guardo apenas suposições e punhados de “talvez”. Isso me angustia. Ah, como angustia!
Reparei que tenho ouvido músicas baixas e isso me assusta. Eu sempre gostei de ouvir a batida dentro do meu peito, de manter o volume mais alto possível e fazer-me não só parte dela, mas a própria música. Notei que agora eu deixo em casa as armas que carregava no bolso frontal porque não preciso mais me defender - nada me pode me atingir, eu sei, exceto eu mesma. Auferi o fato fatídico de que, mesmo que eu deseje, às vezes não consigo escrever. Indago-lhe, Adão: há nesse mundo impedimento mais injusto do que esse que concedem à escritora que sou? Não, não há. E essas e outras transformações chegaram tão ligeiras que não pude perceber: pareciam um vendaval, terremoto descontrolado vindo de dentro.
Será que mudei - nós mudamos - para sempre?
Mas sabe aquela pizza que eu estava lhe falando? Então, comi. Já percebi que, ultimamente, ando me privando da felicidade e paz que encontram-se nos verbos de conjugação irregular, e isso não têm sido, de forma alguma, bom para mim. Agora pareço dissipar meus dias mergulhada num cansaço (talvez causado pela sociedade e seu adorável consumo das minhas vãs reservas de energia) e submersa na mais pura e penosa nostalgia. Escasseei-me, Adão, mas quero-me cheia e inteira de volta.
Também percebi que tenho mania de escrever sobre o passado, das lembranças que fizeram-se eternas e machucam, do que costumávamos ser, das sensações que não me agradavam e ainda permanecem nesse abrigo invisível dentro de mim. Mas não consigo evitar, Adão, e nem eu compreendo o porque. Talvez você saiba - você sempre soube das minhas doenças, quando e como dopar-me com cura. Então, peço-lhe, diga-me, revele-me, reconstrua-me, cuide de mim.
E que você continue sendo assim, doce, leve, como o vento que lhe faz agrado e dobra as pontas desta carta manchada encontrada sobre seus dedos macios, mas calejados.
Com todo o amor do mundo,
sua pequena.
Sinceramente? Reconheço e me identifico com o ludibriar da beleza, afinal nós duas possuímos essa fraqueza, mas, em casos como esse, acredito que existam melhores adjetivos do que simplesmente "bonito". Me refiro a enquete "Reações:".
ResponderExcluirAss: Bunda.