segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Eu gosto de comer tangerina

Lembro que meu pai trazia uma sacola cheia de tangerinas quando voltava da feira, e eu simplesmente não negava a vontade irrefreável de colocá-las na geladeira - ou congelador, dependendo da ansiedade - para comê-las até sobrar bagaço. Assim fazia, todos os sábados, dia de feira, às vezes com ele, às vezes sozinha, e depois ia para a varanda, sempre segurando um prato para não sujar o chão com o suco da tangerina - que, a propósito, é uma delícia. Cresci, e com sua ausência, aprendi a escolher, eu mesma, entre tantas tangerinas, as que levaria para casa, para pôr na geladeira - ou congelador, variava - e comer até nada sobrar. No início demorava um bocado para selecionar, mas depois era só pôr meus olhos em cima e fazer os movimentos mecânicos de pegar as tangerinas, embrulhá-las com sacola plástica, dar um nó, pesar, pagar, levar para casa e enfileirar na geladeira; quando eram muitas, algumas iam param na cesta que servia de estoque, mas eu gostava de comprar uma quantidade razoável para que não passassem do ponto e ficassem maduras demais. Mas maduras demais nunca ficavam, porque quando havia muitas, eu devorava depressa e dava meu jeito para que todas coubessem dentro da geladeira - congelador, muitas vezes -, e então poderia esperá-las alcançarem a temperatura adequada. Bem geladinha - mas não a ponto de machucar dentes sensíveis ou pessoas com problemas na gengiva - era a o grau de calor ideal, o ápice da perfeição. Depois, é claro, eu podia comê-las na varanda, sozinha (mas sempre acompanhada de um prato para não sujar o chão e ter de passar pano depois), até nada sobrar - vez ou outra, o bagaço. Lembro também que eu escrevia redações sobre tangerinas e dava à elas uma profundidade inexistente, irreal, quase insana, mas ainda assim mostrava ao meu pai e ele só dizia “puxa, você gosta mesmo de comer tangerinas!”. Eu gostava, mesmo. Aliais, ainda gosto. Mas ultimamente parece que elas tem perdido o sabor; o gosto cítrico tão viciante não está mais tão cítrico e viciante, e o preço do quilo da tangerina aumentou demasiadamente. Quero dizer, quem aumenta o preço da tangerina? Não pode, não deve. Apesar de tudo, continuo indo à feira todos os sábados - às vezes, aos supermercados durante a semana - , fazendo a seleção eficiente das tangerinas, colocando-as em sacolas plásticas, dando nós, pesando, pagando, levando para casa e colocando na geladeira - dependendo do dia, da pressa, da vontade, no congelador - e comendo. Só que agora sobra bagaço com mais frequência e, vez em quando, caroços. E escrever sobre as tangerinas se tornou tarefa difícil, porque não consigo mais dedicar à elas palavras nobres, condescendentes, belas por si só. Mas continuo devorando-as, especializando-me cada vez mais na arte da seleção de tangerinas e da degustação. Ah, e sabe isso que você está lendo agora? Então, vou formatar como carta e mandar para uma indústria de tangerinas. Talvez eles me contratem, talvez usem minhas palavras para marketing, ou talvez - mas só talvez - diminuam o preço da tangerina.

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