segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Súplicas à uma flor personificada
Minha flor desfalecente, tropical, primaveril, faça-me tudo e nada, só obedeça ao favor: não se afogue nas próprias lágrimas, não mergulhe na decadência funesta nem se jogue desse precipício infinito tão cortês que criaram para você. Apenas se prenda às minhas palavras benevolentes e compreenda que nenhuma dor é maior que seu machado, nenhum apego é mais forte que sua indiferença, nenhuma lembrança é eterna. Meu diamante angelical, inumano, tão doce, feche seus olhos e chore, chore até só restar o sangue das veias e artérias, e depois levante a cabeça como herói que se prepara para combate. E lute. Não precisa ter espada ou decorar poesia, apenas leia-a e sinta-a, como pintor sente paisagem e escritor sente livro. Se quiser fazê-la, tome cuidado, pois feitor de poesia enxerga além; além de corpo, além de carne, além de máscara, e tem de percebe, com certa destreza, a aspereza e insensatez que há no mundo em que vivemos. Consequentemente, sofre, porque possui sensibilidade sem igual e, para poetar, precisa procurar os detalhes mascarados com beleza e usar da franqueza para falar coisas bonitas. Depois, me procure; estarei aqui, sentado nessa cadeira capenga, fitando as nuvens que se desfazem com o sopro mais suave dos ventos, esperando-lhe, disposto a servir-lhe como companhia com todo o bom grado. Minha querida maresia, fragrância dos ares, eterna deusa, você tem tanta força que não cabe, transborda, escorre pelo chão e cria poça funda. Você tem tanta bondade que brilha nas noites mais escuras e enobrece visão de cego, fazendo-se seu próprio farol. Então, imploro-lhe, evite abismos e passe por cima das ruínas sem olhar para trás. Aliás, olhe para trás, olhe para mim, olhe e sorria. Minha flor desfalecente, tropical, primaveril, olhe e sorria…
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