Eu gosto de olhar pro céu. Deixa-me feliz, mais leve, dá-me a impressão de que estou sob um véu gigantesco e que depois dele há um outro mundo, cheio de flores, amores e gosto de marisia. É tão bonito, tão majestoso, que dá vontade de mergulhar bem fundo, de molhar os cabelos na lua que reflete no mar, mesmo sem saber onde é seu paradeiro. O céu, assim, sobre meus olhos castanhos, parece o vestido da Morte - só que ele é vida, é escuridão e luz ao mesmo tempo, tudo junto. Também as estrelas que nele dormem são belas; as tais “namoradas dos vaga-lumes” (como gosto de chamar) muitas vezes me dão vontade de sorrir, noutras de chorar lágrimas doces. Não sei se é assim pra todo mundo ou se minh’alma faz parte dum corpo hipersensível que vê coisa onde ninguém mais vê. É que eu ando sempre muito cheia, cheia a ponto do meu corpo pedir preu deixá-lo transbordar. Mas não quero, num posso, porque essas gotas d’água molham o que tá seco, fazem sofrer cada canto do meu corpo, transformam o vazio num peso imenso que caí sob meu coração fraco, fraco. Aí eu engulo, deixo a dor dominar minha garganta, mantenho seus nós bem apertados. E quando fica tudo muito difícil, insuportável em todos os sentidos, olho pro céu, peço ajuda às nuvens, às cores que não sei distinguir, e tomo um bom café, porque o calor dele alivia a tal dor aprisionada na goela.
Hoje toda palavra bonita que canto soa artificial, e a necessidade de comprar flores para dar de presente a mim mesma só cresce. Meu corpo efêmero suporta apenas o peso dos livros, da complexidade das canções, do céu. Torno-me cada dia mais amante do outro lado do mundo e menos pertencente a esse que vivo. Ainda vejo todas as coisas quando fecho os olhos, sinto melodias quando não há som, coloro com branco telas pretas, desenho o que não existe - e continuo sem saber o que sinto, quem sou eu, sobre as coisas que gosto. A única certeza que carrego é a de que sou ávida de amor - mas seria o amor bom? É só mais uma incerteza. Tô com vontade de gritar segredos de liquidificador, de pôr um disco vinil pra tocar e dormir sem pretensão de acordar. Tô com vontade de contar as estrelas, de trocar a estação, de arrancar da parede da memória o que se fez quadro mal pintado. Tô cheia das vontades, e essas vontades me sufocam…
Tristeza tá comigo, lá em casa. Ironicamente, de uns tempos pra cá, tenho sentido-me muitíssimo só. Não recebo mais respostas pras cartas que escrevo, não ouço mais o soar da campainha e sou olhada com caras feias porque carrego comigo essa mania de ver o mundo de forma diferente. Acontece que não posso evitar, pois mora em mim uma pequena aprendiz de poetisa, teimosa que só, que se recusa a fechar as portas do meu coração pra mergulhar na ignorância e na falta de percepção que domina tudo e todos os cantos - até os becos sem saída. Ah, eu tento não me importar com os traços que me encaram, pois nada posso fazer por aqueles que escolhem ternos, esmaltes, e televisão, se não lamentar. Mas me importo, já que também nasci do ventre, também sou feita de carne e osso, e sentimentos me dominam como dominam o universo. Se choro? Choro nada. Apenas encolho-me num pedaço do mundo, reservo-me à minha loucura sã e trato de escrever, de pintar, de dançar, de servir à arte, pois ela é o alimento mais poderoso que há e fortalece-me como nada mais.
Uma pergunta que te faço: tu comes arte, meu filho? Devias, ainda mais se tu sabes como é sentir um aperto sem raiz no coração, como é não entender o que se passa dentro de ti mesmo. Não gosto de ser direta assim, pois aí a poesia se torna vã, mas não vou enrolar: a triste verdade é que tu jogas nesse meu time abandonado, sem técnico, sem manual de instruções - e estás completamente perdido. Mas fiques calmo, eu te atento: não desistas, olhe pra cima que tu tens tudo o que precisas bem alí, metamorfoseado nas coisas mais puras, simples e bonitas de se ver. E vejas, tem uma refeição inteira aí, na tua frente, querendo ser devorada, implorando pela fome!
Agora, sem mais nem menos, um desejo te confesso: eu quero me casar com o céu, beijá-lo, ouvi-lo contar histórias de pessoas cuja nomes ambos desconhecemos, perguntá-lo qual é o meu problema e porque o mundo não pode amar poesia, também. Eu quero juntar-me à ele e virar a senhora da noite, sem pretensões de grandeza, apenas para poder pôr estrelas sobre poetas que precisam de inspiração, sobre compositores que ainda não encontraram a melodia perfeita. Ah, almejo-o lendo meus poemas, incorporando-os nas nuvens, abraçando-me forte, contando conchas comigo à beira-mar. Só não quero saber de seus segredos, pois que graça há na ausência de mistério? O amor que o dedico é quase enlurado, e espero que possa me salvar desse abismo em que me lanço.
E ainda que eu diga que resisto ao choro, minto, ponho máscaras na frente do próprio rosto marcado pelas lágrimas que não param de rolar. Escondo esse fato como se fosse minha fraqueza, mas agora vejo que é coisa admirável e devo minha vida à ele. Pois se não chorasse, aí sim não aguentaria, já que meu corpo me limita a grandes extensões e o que me compõe é tudo, menos pequeno.
Não sou de todo suicida…
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