segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Curto diálogo entre opostos

- Minha vida feita rio sem pudor segue um torto percurso e desagua em solidão, e talvez por isso eu prefira impor pedras e construir muralhas que contenham toda essa água inconsequente.
- Minha vida feita vendaval inocente destrói, arranca, machuca e recomeça, tão ilesa, tão sórdida… E talvez por isso eu desfaça os laços que me envolvem nas pessoas e crie expectativas vãs.
- Não vejo diferença entre elas, entre nós.
- Como não vê? Você teme a solidão e eu procuro-a loucamente em todos os cantos, becos e armarinhos, até nos trilhos de trem…
- Nós apenas queremos nos achar, e nossas vidas refletem essa necessidade urgente e ansiosa de nos aconchegar dentro dos próprios peitos, entende?
- Será que essas idealizações nefastas se fazem conforto e remédio para nós? E que nossas conclusões antes tão certeiras agora não passam de ilusões?
- Talvez sim, talvez não.
- Ah, por favor, não me venha com esses seus “talvez”; a incerteza é faca afiada invisível e me atinge como música triste em dias chuvosos.
- Não creio que em dia chuvosos você feche sua janela, tranque a porta do quarto e faça de prisões a mente e mobília. Pois nesses mesmos dias eu fujo de casa sem guarda-chuva e deixo as gotas gélidas acariciarem meu rosto cansado, rejuvenescendo-me, transformando-me em água e tão somente água.
- Tranco-me porque gosto, satisfaço-me, lembra? Solidão é amiga, é veneno e cura, e sua compania faz-me bem.
- Quanto desperdício de vida!
- Pois para mim vida e morte são irmãs gêmeas.
- A morte não existe, tampouco o fim, e a vida… A vida é tão viva, tão real, viciante como dose infinita; e me orgulho revelar que de overdose eu quase morri; só não o fiz porque morte não existe, tampouco o fim, e a vida…
- Certo, chega de metáforas baratas e filosofias de botequim. Pegue sua inspiração tola, traduza-a na máquina de escrever e permita-me carregar nos braços Solidão que descrevi. Minha felicidade está aqui, nesse contato imaginário e personificado, e ainda que você não compreenda, não tem direito de interferir. Lembra da vida que falei? Do vendaval, da destruição, dos recomeços? Pois agora faço-me refém e vivo uma morte injusta e sagaz.
- Como você quiser. Não quero interferir, afinal, que direito tem eu, humano tão julgável, perdido e comum? Minha felicidade é diferente da sua, pois encontro-a nos beijos angelicais, na compania dos sábios, na fragrância de marisia, nos raios do sol. Lembra da vida que falei? Do rio, das águas, das muralhas? Então, agora faço-me barco sem porto, sem rumo, sem vela, e navego até o fim… Adeus, se cuide.

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